Benefícios da musculação: o que a evidência sustenta

Musculação e mortalidade, coração, osso, glicemia, pressão e humor: o que BJSM, JACC, JAMA e o ensaio LIFTMOR sustentam de fato, com as ressalvas.

Fabio Oliveira Santos

10/14/20267 min read

Musculação está associada a benefícios em frentes bem diferentes: mortalidade e doenças crônicas, coração, massa óssea, glicemia, pressão arterial, humor e memória. A força da evidência muda muito de um desfecho para outro, de meta-análise com milhares de pessoas a ensaio pequeno. Este texto separa o que está sustentado do que é frágil, com a fonte de cada afirmação no corpo.

Musculação faz bem para o quê, exatamente?

Para bem mais do que músculo, com evidência desigual em cada frente. A meta-análise de Momma e colegas, no British Journal of Sports Medicine, de 2022, reuniu 16 coortes prospectivas e associou atividades de fortalecimento muscular a risco 10 a 17% menor num conjunto de desfechos: mortalidade por todas as causas, doença cardiovascular, câncer total, diabetes e câncer de pulmão.

Duas ressalvas: a faixa cobre o conjunto, não a mortalidade isolada, e a mesma revisão não achou associação para cânceres de cólon, rim, bexiga e pâncreas.

Nas fontes, musculação é atividade de fortalecimento muscular: peso corporal e elásticos contam, e o estímulo é a sobrecarga, não o equipamento. Coorte mostra associação, não causalidade.
O que muda no coração e nos vasos?

A evidência mais recente vem de uma população bem específica: o estudo de Zhang e colegas, no Journal of the American College of Cardiology, de junho de 2026, acompanhou 117.025 enfermeiras norte-americanas das coortes Nurses' Health Study I e II por 14,5 anos.

Quem fazia 2 horas ou mais de treino resistido por semana, contra quem não fazia nenhum, teve risco 20% menor de evento cardiovascular maior (razão de risco 0,80, intervalo de confiança de 95% entre 0,69 e 0,92) e 44% menor de infarto (0,56, de 0,41 a 0,76).

Os limites vêm junto: a amostra é de enfermeiras norte-americanas, não de adultos em geral; a exposição foi autorrelatada a cada quatro anos; e não houve associação significativa com AVC.

E no osso, na glicemia e na pressão?

Há evidência nas três, com magnitudes modestas e ressalvas de método.

1. Osso. O ensaio LIFTMOR, de Watson e colegas, no Journal of Bone and Mineral Research, de 2018, randomizou 101 mulheres pós-menopáusicas com baixa massa óssea, de 65 ± 5 anos, para 8 meses de treino 2x por semana, 30 minutos supervisionados cada. A densidade mineral óssea da coluna lombar subiu 2,9% e caiu 1,2% no controle; no colo do fêmur, subiu 0,3% contra queda de 1,9% — ali o ganho foi evitar a perda. Nada disso vale para treino sem supervisão e sem triagem.
2. Glicemia. A meta-análise brasileira de Umpierre e colegas, na JAMA, de 2011, com 47 ensaios randomizados e 8.538 pacientes com diabetes tipo 2, achou redução de 0,57% na hemoglobina glicada com resistido estruturado. Com ressalva: o intervalo de confiança encosta em zero e a heterogeneidade é altíssima. Acima de 150 minutos semanais, a redução foi de 0,89%.
3. Pressão. A meta-análise de MacDonald e colegas, no Journal of the American Heart Association, de 2016, com 64 estudos e 2.344 pessoas de meia-idade e pré-hipertensas, achou queda de 3,0 mmHg na sistólica e 2,1 na diastólica. O aeróbio, no mesmo estudo, aparece em 5 a 7 mmHg em hipertensos.
Musculação muda o humor e a memória?

Há sinal nas duas, com amostras bem diferentes. Para humor, a meta-análise de Gordon e colegas, na JAMA Psychiatry, de 2018, com 33 ensaios randomizados e 1.877 participantes, achou redução de sintomas depressivos com delta médio de 0,66. O efeito é menor quando a avaliação é cega e reduzir sintomas em estudo não é tratar depressão.

Para memória, o ensaio de Ribeiro e colegas, do grupo BRAINN da Unicamp, na GeroScience, randomizou 44 pessoas com comprometimento cognitivo leve para 6 meses de treino de força 2x por semana: melhor memória episódica verbal e proteção contra atrofia do hipocampo e do precúneo. São desfechos de memória e neuroimagem, não de incidência de demência.

Quanto é preciso fazer?

Há uma divergência real entre duas recomendações vigentes, e ela merece ser dita em voz alta.

A Organização Mundial da Saúde, em 2020, pede para adultos de 18 a 64 anos fortalecimento muscular moderado ou mais intenso, em todos os grandes grupos musculares, em 2 ou mais dias por semana, isso além dos 150 a 300 minutos semanais de aeróbio moderado.
O Guia de Atividade Física para a População Brasileira, de 2021, organiza de outro jeito: 150 a 300 minutos semanais moderados, ou 75 a 150 vigorosos, independentemente do tipo. No documento brasileiro a musculação compõe a cota; no da OMS, é cota à parte.

Momma acrescenta um dado que não vem de diretriz: a maior redução de risco apareceu em torno de 30 a 60 minutos semanais, numa curva em J. Sobre volumes maiores, os autores dizem que o efeito é incerto — o que é diferente de dizer que treinar mais faz mal.

Quem não pode fazer musculação?

Menos gente do que se imagina e essa resposta tem um limite honesto. A OMS afirma que liberação médica prévia é geralmente desnecessária para quem não tem contraindicações e vai começar em intensidade leve a moderada.

Não existe, nas fontes usadas aqui, lista fechada de contraindicações absolutas ao treino de força, por isso não publicamos nenhuma. Vale o inverso: quem tem diagnóstico em acompanhamento leva o assunto à consulta antes de progredir carga. Quadros de coluna pedem conduta específica, assunto de um texto à parte.

A visão da Trend

O padrão que mais vemos nas nossas unidades em Santos: o cliente convencido de que musculação é estética e que "para o coração" é a esteira. Faz 40 minutos de aeróbio, some da sala de pesos e estranha quando o exame não muda.

O que a evidência acima descreve não é vaidade: é osso, glicemia, pressão, humor, memória e massa muscular. E quase toda vem de protocolos com progressão de carga e supervisão.

No Personal Training Compartilhado, com até 4 clientes por Personal, esse acompanhamento cabe: registra-se carga, execução e resposta da sessão anterior, e progride-se a partir disso. Se você quer começar assim, agende uma avaliação na Ponta da Praia ou no Gonzaga, em Santos.

Perguntas frequentes

Quantas vezes por semana preciso treinar força?

Depende da recomendação. A OMS pede fortalecimento moderado ou maior, em todos os grandes grupos musculares, em 2 ou mais dias por semana, além do aeróbio. O Guia brasileiro de 2021 pede 150 a 300 minutos semanais moderados, independentemente do tipo e a musculação pode compor essa cota.
Musculação serve para quem tem pressão alta?

A meta-análise de MacDonald e colegas, no Journal of the American Heart Association, de 2016, com 64 estudos e 2.344 pessoas, achou queda média de 3,0 mmHg na sistólica e 2,1 na diastólica com resistido isolado, em amostra pré-hipertensa. O aeróbio, ali, aparece em 5 a 7 mmHg em hipertensos.
Em quanto tempo o músculo cresce?

No ensaio de Damas e colegas, no The Journal of Physiology, de 2016, com 10 homens jovens acompanhados por 10 semanas, o aumento da área das fibras apareceu só na décima semana, e não na terceira. O ganho de força anterior vem sobretudo de adaptação neural (Siddique e colegas, Sports Medicine, 2020).
Preciso de atestado médico para começar?

As diretrizes da OMS de 2020 afirmam que liberação médica prévia é geralmente desnecessária para quem não tem contraindicações e vai começar em intensidade leve a moderada. Isso não dispensa avaliação profissional: quem tem diagnóstico em acompanhamento deve falar com a equipe médica antes de progredir carga.
Por onde começar hoje

Marque duas sessões de fortalecimento nesta semana, de 30 minutos cada, cobrindo os grandes grupos musculares. É a frequência que a OMS pede e a dos ensaios de osso e memória citados aqui. Peso corporal e elásticos valem.

E anote carga e repetições. Sem registro não existe progressão e é ela que separa esses protocolos de uma rotina repetida por meses.
Fontes

1. Momma, H. et al. Muscle-strengthening activities are associated with lower risk and mortality in major non-communicable diseases: a systematic review and meta-analysis of cohort studies. British Journal of Sports Medicine, 2022; 56(13):755-763. https://doi.org/10.1136/bjsports-2021-105061
2. Zhang, T.; Zhang, Y.; Lee, D. et al. Resistance Training, Aerobic Activity, Television Viewing, and Risk of Major Cardiovascular Events in U.S. Women. Journal of the American College of Cardiology, 2026. https://www.jacc.org/doi/10.1016/j.jacc.2026.04.036
3. American College of Cardiology. Strength Training Linked to Lower Heart Disease Risk in Women, 17/06/2026. https://www.acc.org/about-acc/press-releases/2026/06/17/15/23/strength-training-linked-to-lower-heart-disease-risk-in-women
4. Umpierre, D.; Ribeiro, P. A. B.; Kramer, C. K. et al. Physical Activity Advice Only or Structured Exercise Training and Association With HbA1c Levels in Type 2 Diabetes. JAMA, 2011; 305(17):1790-1799. https://doi.org/10.1001/jama.2011.576
5. MacDonald, H. V. et al. Dynamic Resistance Training as Stand-Alone Antihypertensive Lifestyle Therapy: A Meta-Analysis. Journal of the American Heart Association, 2016; 5(10). https://doi.org/10.1161/JAHA.116.003231
6. Watson, S. L. et al. High-Intensity Resistance and Impact Training Improves Bone Mineral Density and Physical Function in Postmenopausal Women With Osteopenia and Osteoporosis: The LIFTMOR Randomized Controlled Trial. Journal of Bone and Mineral Research, 2018; 33(2):211-220. https://doi.org/10.1002/jbmr.3284
7. Gordon, B. R. et al. Association of Efficacy of Resistance Exercise Training With Depressive Symptoms: Meta-analysis and Meta-regression Analysis of Randomized Clinical Trials. JAMA Psychiatry, 2018; 75(6):566-576. https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2018.0572
8. Ribeiro, I. C. et al. Resistance training protects the hippocampus and precuneus against atrophy and benefits white matter integrity in older adults with mild cognitive impairment. GeroScience, 47(3):5267-5286. https://doi.org/10.1007/s11357-024-01483-8 — divulgação institucional: https://agencia.fapesp.br/musculacao-protege-o-cerebro-de-idosos-contra-demencia-sugere-estudo/54124
9. Damas, F. et al. Resistance training-induced changes in integrated myofibrillar protein synthesis are related to hypertrophy only after attenuation of muscle damage. The Journal of Physiology, 2016; 594(18):5209-5222. https://doi.org/10.1113/JP272472
10. Siddique, U. et al. Determining the Sites of Neural Adaptations to Resistance Training: A Systematic Review and Meta-analysis. Sports Medicine, 2020; 50(6):1107-1128. https://doi.org/10.1007/s40279-020-01258-z
11. World Health Organization. WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour, 2020. https://www.who.int/publications/i/item/9789240015128
12. Ministério da Saúde. Guia de Atividade Física para a População Brasileira, 2021. https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/guias-e-manuais/2021/guia-de-atividade-fisica-para-a-populacao-brasileira.pdf — enunciado conferido via grupo de trabalho do Guia, Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde, 2021;26. https://doi.org/10.12820/rbafs.26e0215

Autor: Fabio Oliveira Santos, General Manager da Trend The Wellness Club — CREF 122288-G/SP
Especialista em Fisiologia Aplicada à Clínica e ao Treinamento Desportivo. Responsável técnico pela metodologia e pelos programas de aula da Trend e pela supervisão de todos os Personal Trainers do time. Atende clientes nas unidades da Ponta da Praia e do Gonzaga, em Santos.