Caneta emagrecedora: por que treinar força durante o uso
Parte do peso perdido com medicamento é massa magra. Veja o que as diretrizes de 2026 recomendam e o que a evidência ainda não provou.
Cleiton de Castro
8/13/20267 min read


Por que perder massa magra é um problema, e não só um número?
Porque músculo não é enfeite. Ele é o tecido que sustenta a força para subir escada, levantar da cadeira sem apoio de braço, carregar compras e não cair. É também um dos principais destinos da glicose que circula no sangue.
A analogia que costumo usar com quem chega aqui: emagrecer perdendo músculo é como emagrecer a casa derrubando parede estrutural junto com o entulho. A balança agradece. A estrutura, não. Existe um agravante prático que aparece depois.
Quem interrompe o tratamento e recupera peso costuma recuperar prioritariamente gordura, não músculo. O resultado é uma pessoa com o mesmo peso de antes e menos massa magra do que tinha no início.
O que as diretrizes recomendam?
Isso mudou muito rápido nos últimos dois anos, e vale ver o que cada uma diz.
Porque parte do peso que se perde com esses medicamentos não é gordura: é massa magra, o tecido que inclui o músculo. As diretrizes brasileiras e internacionais publicadas em 2025 e 2026 passaram a recomendar explicitamente treino resistido e ingestão adequada de proteína junto do tratamento, exatamente para reduzir essa perda.
É uma recomendação de sociedades científicas, não uma promessa de resultado, e essa diferença importa, como você vai ver abaixo.
Quanto de massa magra se perde emagrecendo com medicamento?
O melhor dado disponível vem de um subestudo de composição corporal do ensaio SURMOUNT-1, publicado no periódico Diabetes, Obesity and Metabolism em 2025. Nele, 160 participantes fizeram exame de densitometria (DXA) no início e na semana 72. O peso caiu 21,3%, a massa gorda caiu 33,9% e a massa magra caiu 10,9%.
Traduzindo a proporção: cerca de três quartos do peso perdido foi gordura e cerca de um quarto foi massa magra. E aqui vem o dado que quase nunca é contado junto: essa proporção foi semelhante à do grupo que recebeu placebo, ou seja, perder massa magra ao emagrecer não é um efeito exclusivo do medicamento, é o que acontece em praticamente qualquer perda de peso relevante.
Uma análise publicada na The Lancet Diabetes & Endocrinology em 2024 amplia a faixa: os estudos sugerem que a perda de músculo com essas medicações representa de 25% a 39% do peso total perdido em períodos de 36 a 72 semanas.


Quatro documentos, quatro instituições diferentes, três países, e a mesma conclusão. Quando isso acontece, deixa de ser opinião de treinador.
Treinar força durante o tratamento garante que eu não vou perder músculo?
Não. E quem afirmar isso está indo além do que os estudos mostram.
Preciso ser preciso aqui, porque é o ponto onde a maior parte do conteúdo sobre o assunto exagera. Não existe, hoje, ensaio clínico randomizado demonstrando que treino de força durante o uso de semaglutida ou tirzepatida preserva massa magra. A própria diretriz da ABESO de 2026 registra que o impacto dessas medicações sobre força, funcionalidade e sarcopenia ainda não foi claramente estabelecido.
O que existe é forte e vale citar. Um ensaio clínico publicado no New England Journal of Medicine em 2021 testou exercício e medicação para manutenção de peso após dieta, com liraglutida, uma medicação da mesma família, mas não a mesma. A combinação de exercício com o medicamento reduziu o percentual de gordura corporal em 3,9 pontos percentuais, cerca do dobro do que cada um isolado conseguiu. E apenas a combinação melhorou hemoglobina glicada, sensibilidade à insulina e aptidão cardiorrespiratória.
Então a recomendação de treinar força durante o tratamento se apoia em dois pilares: a orientação convergente de quatro sociedades científicas e o que se sabe sobre treino resistido e preservação de massa magra em perda de peso de forma geral. Não em um ensaio específico com esses medicamentos, porque ele ainda não foi feito.
Isso é motivo para treinar assim mesmo? É. Mas é motivo para desconfiar de quem promete.
Flacidez depois de emagrecer é pele ou músculo perdido?
Costuma ser os dois, em proporções que variam.
Parte do que as pessoas chamam de flacidez é pele que não retraiu na mesma velocidade da perda de volume, e isso depende de idade, de quanto peso foi perdido, de quanto tempo a pessoa passou naquele peso e de genética. Não há exercício que resolva excesso de pele.
A outra parte é perda de volume muscular embaixo da pele. Essa parte, sim, responde a treino resistido, porque é tecido que se constrói. É a diferença entre um braço que perdeu preenchimento e um braço com sobra de pele. Um profissional consegue distinguir os dois na avaliação, e a conduta muda completamente.
Quando começar a treinar?
Idealmente, antes ou junto do início do tratamento. Quanto mais tarde o treino entra, mais massa magra já se perdeu, e reconstruir custa mais tempo do que preservar.
Se o tratamento já começou, isso não muda a recomendação: começar agora ainda é melhor do que começar depois.
Duas coisas que não são negociáveis:
A primeira: quem prescreve, ajusta e acompanha a medicação é o médico, e a decisão de usar, manter ou interromper é dele com você.
A segunda: alimentação, incluindo quantidade de proteína, é competência do nutricionista. Um estúdio de treino não prescreve dieta nem medicamento, e desconfie de qualquer um que se ofereça para isso.
A visão da Trend
Passei 25 anos no mercado de fitness e nunca vi um tema chegar tão rápido na recepção quanto esse. O padrão que a gente vê nas nossas unidades em Santos é bem específico: a pessoa chega já com dez, quinze quilos a menos, animada com o número da balança, e com uma queixa que ela não sabe nomear. Diz que está "murcha". Que perdeu peso mas está mais cansada. Que a roupa caiu mas o braço não ficou como ela imaginava.
Quando a gente faz a avaliação, a história costuma ser a mesma: emagreceu rápido, não treinou nada nesse período, e perdeu junto uma parte da estrutura.
Por isso, no Personal Training Compartilhado, com até 4 clientes por Personal, quem chega em tratamento entra num plano com prioridade clara para treino resistido e progressão de carga acompanhada de perto, e a gente pede que o médico e o nutricionista que acompanham saibam que essa pessoa começou a treinar. Não é formalidade. É o que faz as três frentes trabalharem na mesma direção em vez de cada uma puxar para um lado.
Se você está em tratamento e quer estruturar o treino, dá para agendar uma avaliação e montar isso com o time.
Perguntas frequentes
Posso treinar pesado usando esses medicamentos?
A intensidade adequada depende do seu quadro, do seu histórico de treino e de como você tem se alimentado durante o tratamento, que costuma ser bem menos do que antes. Isso é decisão de avaliação individual com o profissional que acompanha, não de regra geral de internet.
Vou perder músculo mesmo comendo bem?
Perder alguma massa magra em uma perda de peso relevante é esperado, com ou sem medicamento. O que as diretrizes recomendam é reduzir essa perda com proteína adequada e treino resistido, não eliminá-la. Quem define a quantidade de proteína é o nutricionista.
Quantas vezes por semana preciso treinar força?
A diretriz da ABESO fala em combinar o exercício aeróbico semanal com sessões de treinamento resistido, sem fixar um número universal.
Na prática, a frequência que cabe na sua rotina e que você sustenta por meses vale mais do que a frequência ideal que você abandona em três semanas.
Parei o medicamento e o peso voltou. E agora?
É um cenário comum e não é fracasso pessoal. O ponto de atenção é que o peso que volta tende a ser mais gordura do que músculo. Manter treino de força durante e depois do tratamento é justamente o que muda a composição do que se recupera. A decisão sobre o medicamento continua sendo médica.
O treino substitui o medicamento?
Não é a pergunta certa, e nenhum profissional sério vai responder por você. São ferramentas diferentes, com finalidades diferentes. Quem avalia se a medicação é indicada, se deve continuar ou parar, é o médico.
Por onde começar hoje?
Se você está em tratamento e ainda não treina, faça uma coisa concreta esta semana: leve para a próxima consulta médica a pergunta escrita "há alguma restrição para eu iniciar treino de força?". A resposta cabe em um minuto de consulta, costuma ser não, e destrava o passo que mais protege o resultado que você já conquistou.
Autor: Cleiton de Castro, CEO e Fundador da Trend The Wellness Club. Formando em Educação Física. 25 anos de carreira no Fitness. Foi executivo de Wellhub e Rappi em três países por dez anos.
Revisão técnica: Fabio Oliveira, General Manager e responsável técnico da Trend The Wellness Club — CREF 122288-G/SP
Fontes
Look, M. et al. Body composition changes during tirzepatide treatment: SURMOUNT-1 substudy. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2025. https://doi.org/10.1111/dom.16275
Prado, C.M.; Phillips, S.M.; Gonzalez, M.C.; Heymsfield, S.B. Muscle matters: the effects of medically induced weight loss on skeletal muscle. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2024. https://doi.org/10.1016/S2213-8587(24)00272-9
ABESO. Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade, 5ª edição. Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica, 2026. https://abeso.org.br/wp-content/uploads/2026/03/Diretrizes-ABESO_completo_20260320.pdf
American Diabetes Association. Standards of Care in Diabetes 2026 — Section 8: Obesity and Weight Management. Diabetes Care, 2026. https://diabetesjournals.org/care/article/49/Supplement_1/S166/163915/
EASO, EFAD e ECPO. Consensus statement on incretin-based therapies in obesity care. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2026. https://efad.org/easo-efad-ecpo-consensus-statement-on-incretin-based-therapies-in-obesity-care/
American College of Lifestyle Medicine et al. Nutritional Priorities to Support GLP-1 Therapy for Obesity: joint advisory. The Obesity Society, 2025. https://www.obesity.org/nutritional-priorities-to-support-glp-1-therapy-for-obesity/
Lundgren, J.R. et al. Healthy weight loss maintenance with exercise, liraglutide, or both combined. New England Journal of Medicine, 2021. https://doi.org/10.1056/NEJMoa2028198
