Exercício e câncer de mama: o que a evidência mostra
Atividade física está associada a menor risco de câncer de mama e ajuda durante o tratamento. Veja o que INCA, ACSM e Cochrane sustentam e o que não.
Fabio Oliveira Santos
10/6/20268 min read


Exercício e câncer de mama: o que a evidência mostra.
A evidência sustenta duas coisas diferentes, e confundi-las é o erro mais comum. Primeiro: quem é fisicamente ativo tem risco menor de desenvolver câncer de mama, a revisão do American College of Sports Medicine, publicada em 2019, estimou risco 13% menor entre os mais ativos. Segundo: durante e após o tratamento, o exercício é seguro na maioria dos casos e melhora aptidão física e fadiga, segundo o guia do INCA. Menor risco populacional não é garantia individual.
Por que o movimento muda o risco de câncer de mama?
Porque o exercício mexe em três engrenagens que o tumor de mama usa: hormônios, gordura corporal e inflamação.
O Ministério da Saúde, na página que mantém sobre Outubro Rosa e atividade física, resume o mecanismo hormonal: a prática regular ajuda a diminuir a circulação de hormônios femininos relacionados ao desenvolvimento do câncer de mama, como estrogênio e progesterona. Menos tecido adiposo significa menos produção periférica desses hormônios depois da menopausa, quando o ovário deixa de ser a fonte principal.
Pense no corpo como uma casa com várias torneiras pingando. O exercício não fecha nenhuma sozinho, ele reduz a vazão de várias ao mesmo tempo. É por isso que o efeito aparece em estudos de população, com milhares de pessoas, e não como uma garantia para uma pessoa específica.
Exercício previne câncer de mama?
Não. Ele está associado a um risco menor e essa diferença de palavras é o ponto mais importante do texto.
A revisão do American College of Sports Medicine coordenada por Patel e colegas, publicada em 2019 na Medicine and Science in Sports and Exercise, reuniu 25 estudos e encontrou risco 13% menor de câncer de mama entre pessoas com níveis altos de atividade física de lazer, comparadas às de níveis baixos (razão de risco 0,87, intervalo de confiança de 95% entre 0,83 e 0,91). O painel classificou a evidência como forte.
O relatório do World Cancer Research Fund sobre câncer de mama (2017, revisado em 2018) chega perto: risco relativo de 0,87 para atividade física total em mulheres na pós-menopausa, com o painel classificando o achado como "provável". Antes da menopausa, a evidência é mais frágil e só a atividade vigorosa recebe a mesma classificação.
Traduzindo para a vida real: mulheres muito ativas desenvolvem câncer de mama, e isso não é falha pessoal. O que a evidência diz é que, num grupo grande, a proporção de casos é menor entre as ativas. Rastreamento continua sendo rastreamento, a mamografia não tem substituto.
Um aviso sobre um número que circula muito: a página do Ministério da Saúde afirma que cerca de 30% dos casos podem ser evitados com hábitos saudáveis. Esse percentual é do conjunto de hábitos, peso corporal, álcool, amamentação, tabagismo e não do exercício isolado. Atribuí-lo só ao treino é distorcer a fonte.
Quanto de exercício as recomendações brasileiras pedem?
Pelo menos 150 minutos por semana de atividade moderada a vigorosa. É o número que o Ministério da Saúde usa na página de Outubro Rosa.
O guia Recomendações de atividade física durante e após tratamento oncológico, publicado em 2023 pelo INCA em coedição com a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica e a Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde, traz a mesma referência de dose: 150 minutos semanais em intensidade moderada, ou 75 minutos em intensidade vigorosa, ou uma combinação equivalente.
Vale registrar o que isso é: 150 minutos por semana são cerca de 20 minutos por dia, ou três sessões de 50 minutos. Não é volume de atleta. É volume de rotina.
Quem está em tratamento pode treinar?
Na maioria dos casos, sim, com liberação médica, supervisão e ajustes. O posicionamento do INCA sobre atividade física, de janeiro de 2025, afirma que a prática durante e após o tratamento do câncer é segura, tolerável e apresenta baixo risco.
O guia de 2023 do INCA, da SBOC e da SBAFS lista contraindicações absolutas que precisam ser respeitadas: presença de infecções, incluindo celulites; hérnia ou infecção relacionada à ostomia; febre, dor intensa ou qualquer dor no peito ainda não investigada.
E lista cuidados por condição. No câncer de mama especificamente: atenção aos membros superiores quando há linfedema, uso de malhas compressivas, intensidade leve a moderada, e trabalho de força e flexibilidade para pescoço, ombro e braço. Em caso de metástase óssea, supervisão é obrigatória e o movimento precisa ser controlado.
Nada disso se resolve por conta própria. A sequência correta é: equipe que trata autoriza, profissional de educação física monta e supervisiona.
O que o exercício muda de fato durante o tratamento?
Melhora a aptidão física e reduz a fadiga, com efeito real, porém modesto. Dizer mais que isso seria vender ilusão.
A revisão Cochrane de Furmaniak e colegas (2016), especificamente sobre exercício em mulheres recebendo terapia adjuvante para câncer de mama, reuniu 32 ensaios randomizados e 2.626 mulheres. Resultado: o exercício provavelmente melhora a aptidão física (diferença média padronizada de 0,42, em 15 estudos, certeza moderada) e reduz levemente a fadiga (diferença média padronizada de −0,28, em 19 estudos, certeza moderada). Sobre qualidade de vida específica para câncer, a mesma revisão encontrou pouca ou nenhuma diferença.
A revisão Cochrane mais ampla sobre fadiga oncológica, de Cramp e Byron-Daniel, com 56 estudos e 4.068 participantes, encontrou efeito na mesma ordem de grandeza: diferença média padronizada de −0,27 ao fim da intervenção.
É pouco? É um efeito pequeno em um sintoma que derruba a rotina de quem está em tratamento. Pequeno e real vale mais que grande e inventado.
Treino de força entra nessa conta?
Entra, e é o componente mais negligenciado.
O guia do INCA, da SBOC e da SBAFS classifica exercício aeróbio e de força com alta certeza de evidência, e flexibilidade e equilíbrio com certeza moderada. As doses variam por desfecho: para bem-estar psicossocial, aeróbio moderado três vezes por semana, no mínimo 12 semanas, ou aeróbio somado a força duas vezes por semana pelo mesmo período; para fadiga, atividade moderada a vigorosa pelo menos duas vezes por semana; para função física, três vezes por semana, de 8 a 12 semanas.
O consenso internacional do American College of Sports Medicine para sobreviventes de câncer, publicado em 2019, converge: cerca de 30 minutos por sessão, três vezes por semana, combinando treino aeróbio e resistido.
A visão da Trend
O que mais vemos nas nossas unidades em Santos não é medo de treinar, é medo de mexer o braço do lado operado. A cliente chega com a liberação médica na mão e trava na primeira elevação lateral, mesmo com peso leve, porque ninguém explicou onde é o limite dela.
Por isso, no Personal Training Compartilhado, com até 4 clientes por Personal, esse caso não vira "aula em grupo": vira acompanhamento individual dentro do grupo, com registro de amplitude, de carga e de como o braço respondeu na sessão anterior. É o tipo de detalhe que não cabe numa turma grande e não sobrevive a um treino impresso sem supervisão. Se você está nesse momento e já tem liberação da equipe que te acompanha, agende uma avaliação em uma das nossas unidades.
Perguntas frequentes
Exercício substitui a mamografia?
Não. Nenhuma fonte sustenta isso. A atividade física está associada a risco menor de desenvolver a doença, mas não detecta nada. O rastreamento por imagem continua sendo o que identifica o tumor cedo, que é o objetivo central da campanha de Outubro Rosa.
Posso treinar durante a quimioterapia?
Em geral sim, com liberação da equipe médica e supervisão. O guia do INCA de 2023 lista contraindicações absolutas: infecção, febre, dor intensa e dor no peito não investigada. Fora desses quadros, o posicionamento do INCA descreve a prática como segura e de baixo risco.
Treino de força piora o linfedema?
As recomendações do INCA, da SBOC e da SBAFS orientam intensidade leve a moderada, uso de malhas compressivas e trabalho de força e flexibilidade para pescoço, ombro e braço. Não há orientação de evitar o membro. O que existe é orientação de progressão cuidadosa e supervisionada.
Quanto tempo por semana é suficiente?
As recomendações brasileiras usam 150 minutos semanais de atividade moderada, ou 75 minutos de atividade vigorosa, ou uma combinação equivalente, com fortalecimento muscular ao menos duas vezes por semana. É o mesmo patamar recomendado para a população adulta em geral.
Por onde começar hoje
Se você não está em tratamento: some 20 minutos de caminhada rápida ao seu dia, cinco dias por semana, e marque duas sessões de fortalecimento na agenda da semana. Isso já coloca você dentro do patamar que as recomendações brasileiras descrevem.
Se você está em tratamento ou terminou há pouco: leve esta pergunta à sua próxima consulta, "estou liberada para exercício, e há alguma restrição específica no meu caso?". A resposta escrita da equipe é o documento que permite montar um programa com segurança.
Fontes
Ministério da Saúde. Outubro Rosa: como a atividade física contribui para a prevenção do câncer de mama, 2022. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/prevencao-ao-cancer/outubro-rosa-como-a-atividade-fisica-contribui-para-a-prevencao-do-cancer-de-mama
INCA, SBOC e SBAFS. Recomendações de atividade física durante e após tratamento oncológico, 2023. https://www.inca.gov.br/publicacoes/livros/recomendacoes-de-atividade-fisica-durante-e-apos-tratamento-oncologico
INCA. Posicionamento do INCA acerca da atividade física, janeiro de 2025. https://www.inca.gov.br/publicacoes/notas-tecnicas/posicionamento-do-inca-acerca-da-atividade-fisica
Patel, A. V. et al. American College of Sports Medicine Roundtable Report on Physical Activity, Sedentary Behavior, and Cancer Prevention and Control. Medicine and Science in Sports and Exercise, 2019; 51(11):2391-2402. https://escholarship.org/content/qt4w55029m/qt4w55029m_noSplash_45cbaec6b44334243853875125d8ec30.pdf
Campbell, K. L. et al. Exercise Guidelines for Cancer Survivors: Consensus Statement from International Multidisciplinary Roundtable. Medicine and Science in Sports and Exercise, 2019; 51(11):2375-2390. https://journals.lww.com/acsm-msse/fulltext/2019/11000/exercise_guidelines_for_cancer_survivors_.23.aspx
Furmaniak, A. C.; Menig, M.; Markes, M. H. Exercise for women receiving adjuvant therapy for breast cancer. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2016. https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD005001.pub3/full
Cramp, F.; Byron-Daniel, J. Exercise for the management of cancer-related fatigue in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2012. https://www.cochrane.org/evidence/CD006145_effect-exercise-fatigue-associated-cancer
World Cancer Research Fund e American Institute for Cancer Research. Diet, Nutrition, Physical Activity and Breast Cancer, 2017 (revisado em 2018). https://www.wcrf.org/wp-content/uploads/2024/10/Breast-cancer-report.pdf
INCA. Estimativa 2026-2028: síntese de resultados e comentários. https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/numeros/estimativa/sintese-de-resultados-e-comentarios
Autor: Fabio Oliveira Santos, General Manager da Trend The Wellness Club — CREF 122288-G/SP Especialista em Fisiologia Aplicada à Clínica e ao Treinamento Desportivo. Responsável técnico pela metodologia e pelos programas de aula da Trend e pela supervisão de todos os Personal Trainers do time. Atende clientes nas unidades da Ponta da Praia e do Gonzaga, em Santos.Revisão técnica: Fernanda Gomes Hernandez — CREF 177680-G/SP, Personal Trainer do quadro técnico da Trend The Wellness Club. Especialista em treinamento resistido e Musculação para grupos especiais.
